Esporte e cultura ainda são relegados ao segundo plano nos investimentos públicos. Mas profissionais das duas áreas garantem que, com mais atenção dos governos, haveria muitos benefícios à sociedade
Com cinco ou seis retas é fácil fazer uma cancha, ou um palco para apresentações musicais. Mas formar um atleta ou um artista para ocupar esses espaços exige muito mais. Dentre tantas demandas sociais, as atividades esportivas e culturais costumam ser coadjuvantes nas políticas públicas, e talvez por isso sejam abraçadas co2">m força por alguns cidadãos. Como os 18 que criaram a Fundação Nadar em 2002, que promove a inclusão social pela prática da natação.
1938
Origens
Arquivo
Lançamento das Olimpíadas Colegiais, no Colégio Estadual do Paraná. Nos anos seguintes, o evento cresceu e incorporou escolas de todo o estado, culminando com o grande evento de 1953, em comemoração ao centenário da emancipação política do estado. Essa data marca o início dos Jogos Escolares do Paraná (JEPs), que em 2014 está na 61ª edição e é um dos maiores investimentos estaduais no esporte (1).
1974
Guairão
Jonathan Campos/ Gazeta do Povo
O Grande Auditório Bento Munhoz da Rocha Netto é inaugurado (2). Em 1969, uma lei estadual transformou o Teatro Guaíra em fundação, o que garantiu autonomia administrativa e orçamentária. Em 1991, houve nova mudança para autarquia, o que reduziu a flexibilidade administrativa e financeira. Análise atual aponta para as dificuldades de modernização do Teatro Guaíra com a manutenção do regime de autarquia (3).
2002
Museus
Daniel Castellano/ Gazeta do Povo
No fim do ano, é aberto o Museu Oscar Niemeyer (MON), na época batizado como Novo Museu. O espaço viria a se tornar grande atração de Curitiba, batendo recordes de visitação: 340 mil visitantes em 2013 (4).
2007
Na escola
Marcelo Andrade/ Gazeta do Povo
Naquele ano, Estefani Maria Demori Marcondes, ainda com 10 anos, começou a participar das aulas de basquete no Colégio Estadual Silveira da Mota, em São José dos Pinhais. Ela lembra que a infraestrutura do local não era boa: havia poucas bolas e a cancha era ruim. Mas os incentivos do professor de Educação Física Doalcei Domingues a motivaram a continuar treinando e, dois anos depois, ela passou a fazer escolinha no Ginásio Ney Braga, com mais estrutura. Passou a defender a cidade em competições e, em 2013, fazia parte da seleção paranaense sub-19.
2011
29%
Dos municípios do Paraná têm museus, segundo publicação Guia dos Museus Brasileiros. Em Santa Catarina, o índice é de 33%; no Rio Grande do Sul, de 34% (5).
2016
Risco olímpico
Dependendo do desempenho dos brasileiros nos Jogos no Rio de Janeiro, pode ocorrer esvaziamento dos investimentos em esportes de alto rendimento. Isso ocorre após qualquer Olimpíada e pode se agravar, caso a meta traçada pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) não se concretize: ficar entre os dez primeiros lugares, o que significa conquistar oito ou nove medalhas de ouro, contra três conquistadas em Londres.
2024
Todos os 399
Municípios do Paraná poderão ter programas de formação e capacitação na área cultural, caso a proposta preliminar do Plano Estadual de Cultura, que ainda está em fase de consulta, se concretize (8). Para dar sua opinião sobre o plano, acessehttp://bit.ly/1pR4Eya até o dia 31 de outubro de 2014.
Marcelo Carneiro, de 49 anos, técnico, é um deles. Ele conta que o grupo, motivado pelas experiências positivas que os próprios filhos tiveram com o esporte, resolveram se juntar e apoiar o desenvolvimento de outras crianças. O projeto vem rendendo frutos de vários tipos, mas a avaliação é que muito mais poderia ser feito se houvesse um envolvimento efetivo do poder público. “Cada vez está mais difícil. O que conseguimos basicamente vem do trabalho de voluntários e das empresas que patrocinam. Dos governos, muito pouco”, conta ele.
No Paraná, uma barreira é a falta de regulamentação da Lei de Incentivo ao Esporte. A norma ajudaria a captar recursos com empresas que ganhariam benefícios fiscais. “O ideal seria reduzir a morosidade. O Bolsa Atleta federal vem destinando recursos, mas depois de muita burocracia. É preciso apresentar um projeto, e, depois de aprovado, captar os recursos, que vão para um fundo federal, que destina uma parte para o COB [Comitê Olímpico Brasileiro], para depois receber o dinheiro”, relata Carneiro.
Fundos municipais também não dão conta do que as entidades precisam, conta o técnico. “Muitas empresas até ajudam, e ganham uma isenção fiscal. Mas, como veem que o dinheiro não é repassado, acabam desistindo.”
O dinheiro privado é uma alternativa aos poucos recursos públicos destinados ao setor. No orçamento de 2012, por exemplo, o esporte recebeu apenas 1,17% do total das despesas executadas no Paraná, segundo dados da série Finanças do Brasil, do Tesouro Nacional. Nem é uma situação tão crítica, comparada com a de outros estados. Dentro da área, o esporte de alto rendimento consumiu 6,43%.
“Para o alto rendimento há mais ações, mais interesse de empresas, porque há resposta de marketing. O que falta é apoiar a base, a iniciação de atletas”, aponta Carneiro. Os benefícios são muitos, garante, e não apenas à criança. “O esporte muda a vida da família toda. Há um cronograma a ser cumprido, hábitos de saúde, higiene, rotina de sono, e tudo isso aprimora o senso de responsabilidade.” Quando a Fundação Nadar tem voluntários, é feito um reforço escolar, mas atualmente não. No momento, uma professora acompanha o boletim dos alunos e conversa sobre o desempenho em sala de aula.
Cultura
Políticas de incentivo dão muito poder às empresas
O professor de Educação Física Fernando Mascarenhas, da Universidade de Brasília (UnB), diz que há competências concorrentes entre União, estados e municípios nas políticas para o esporte. “Mas não se muda nada. Os estados já têm autonomia para definir suas políticas, mas falta um sistema nacional que organize o sistema esportivo”, opina. Ele ainda critica a força que algumas confederações esportivas têm. “O que precisa ser elevado é a fonte orçamentária, para que a população exerça maior controle sobre os gastos.” Para ele, devem ser priorizados investimentos no esporte e lazer que beneficiem toda a população.
Mas, para o professor Aldemir Teles Dema, da Escola Superior de Educação Física da Universidade de Pernambuco, não é preciso priorizar nenhum lado. “Todas são importantes para o desenvolvimento de uma política consistente de esporte.” Nos esportes olímpicos, porém, as empresas poderiam investir mais, assim como os governos estaduais. “A Jamaica possui uma área de 10 mil quilômetros quadrados e 2,8 milhões de habitantes. Esse país conquistou 12 medalhas e a 18.ª posisção na Olimpíada de Londres. O Brasil ficou em 22.º lugar. Imagine então o que cada estado brasileiro poderia fazer se investisse seriamente no esporte”, comenta.
Em relação às políticas de isenção fiscal, Mascarenhas critica a falta de transparência na escolha dos projetos e o poder dado às empresas, que decidem onde investir. Isso também ocorre na cultura.
Para a diretora teatral e atriz Ana Paula Frazão, a próxima gestão do governo estadual precisa confirmar a efetivação do Plano Estadual de Cultura e do Sistema Estadual. “Há um grande problema de descontinuidade. Precisamos de um marco regulatório forte para acessar os recursos.” Ela pondera que apenas recentemente o Conselho Estadual de Cultura passou a dar voz a artistas de todo o Paraná. “A produção cultural é riquíssima no interior. Cultura não é apenas o Festival de Teatro de Curitiba, é muito mais que isso.”
Fonte das informações: 1) Artigo de Isabel Cristina Martines e Sergio Roberto Chaves Junior (2008); 2) Teatro Guaíra; 3) Dissertação de Agemir Carvalho Dias (2014), UTFPR; 4) Museu Oscar Niemeyer; 5) Guia dos Museus Brasileiros (2011); 6) Sistema de Informações e Indicadores Culturais 2007-2010/IBGE; 7) Tesouro Nacional; 8) Secretaria Estadual de Cultura.
Nenhum comentário:
Postar um comentário